quinta-feira, 5 de Março de 2009

Chorar de sono

Como todo o mundo fala do assunto, não vou ser menos. Esse partido gris chamado PSdG-PSOE, e a sua muleta eleitoral, o BNG; perderam os comícios simplesmente porque mereceram perder. Esse choro generalizado entre as camadas médias da população, salvo excepções, o único que desvela é a cumplicidade social sobre a que se erguia esse dolce fare niente do Bloco, no que muitos depositaram as suas aspirações mesocráticas (nada a ver pois com a língua, a soberania ou o progressismo).
Desde essas facções aderidas à corrente ideológica que louva o mérito pessoal face o clientelismo, a cultura letrada em face da tontice folclórica, a presunção acadêmica face o senso comum mais vulgar; havia muita gente disposta a assumir o vazio discursivo do Bloco como uma concessão necessária ao pragmatismo político num país considerado como essencialmente conservador. É assim que o BNG se sentiu legitimado para paquerar com a burguesia, celebrar romarias septuagenárias ou respeitar as prebendas do antigo regime acrescentando as suas próprias. Em todo emulou à sua nêmese: na ostentação, na gestão dos recursos naturais, na orientação da política social cara o sector privado ou até no desejo de não virar a língua numa questão problemática (como se não fosse desde sempre). Frente às críticas provenientes das suas próprias bases, o Bloco amostrou-se totalmente hermético... Tratava-se de disputar votos ao sector boina do PP, demonstrando que o marxismo apenas foi um pecado de juventude dalguns dos seus dirigentes.
O rural galego é propriedade política do PP, não há mais. A área rural, escassamente dinâmica, parcelada até o infinito e visivelmente avelhantada; é o hábitat do pequeno proprietário dependente, sustento dos cacicatos locais. O mundo rural permaneceu imperturbável. Como se pretende seduzir uma classe social à que no fundo se despreza?
Não foi o único fracasso amoroso do BNG. Os seus galanteios com a burguesia autóctone apenas tiveram como resposta o informe do Clube Financeiro de Vigo e a campanha de La Voz de Galicia; autêntica voz não só de Santiago Rey, também de Paco Vázquez, Jose Luis Méndez, Amancio Ortega ou a Condesa de Fenosa. Quer dizer, a voz da classe dominante. Como exercer o nepotismo sem uns médios de comunicação discretos? Até a “oportuna” introdução do Xornal de Galicia, nem valeu para ter um médio de comunicação integramente em galego. Se não é possível esperar apenas isso do nacionalismo indígena... para que demônios nos serve?
Afinal, parte das bases aborreceram com a espera e caíram no reverso lógico do voto útil: o voto de castigo. Chorem por isso. Essa chantagem da democracia burguesa na que seguirão caindo apenas servirá a Espanha: promoverá a concentração do voto para reduzir drasticamente a heterogeneidade política do país e afinal, os erros que cometer o BNG se computarão como erros do nacionalismo galego no seu conjunto. Sigam pisando a armadilha.
No entanto, o coro de choradeiras seguirá sem olhar fora, à esquerda do parlamento. O único lugar onde é possível uma muito longínqua esperança.

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