Segunda-feira, 29 de Junho de 2009

Contra o consenso

Publicado no PGL
O atual presidente da Junta, Alberte N. Feijoo, tem a estranha habilidade de obrigar-nos a falar do evidente, o qual é cansativo e desalentador. Porém suspeito que seja também necessário tendo em conta que se está lá, é porque existem sectores importantes da nossa sociedade que o referendaram.
Uma destas obviedades para qualquer um que não se deixe cegar pelas luzes dos fogos de artifício e os discursos vácuos é a que se refere à agitação social. Nos últimos meses, certas fórmulas retóricas puseram-se na moda: «conflito artificial», «criar um conflito onde não havia», «consenso necessário», etc. Estas fórmulas nascem diretamente das assessorias políticas e são reproduzidas pelo jornalismo massivo e dócil. A finalidade é virá-las num tópico popular aplicável a questões tão diversas como a planificação linguística, a greve do metal ou a protesta agrária. E funciona, porque a existência quotidiana já é suficientemente difícil para que a um nível macro-social emerjam problemáticas que ameacem as respostas ritualizadas com as que transcorremos pelo nosso entorno e que nos brindam uma segurança pessoal. Apesar da angústia que geram todas as mudanças, é necessário fazer ver que o conflito, quando se faz patente, representa uma oportunidade.
Por outro lado, não é complexo contestar essa fraseologia oficial e perversa. O que é um «conflito artificial»? Todo conflito é artificial por definição na medida em que está protagonizado por seres humanos. «Criarmos conflitos onde não havia»? Duvido-o. O conflito não aparece do nada. É o resultado duma colisão de interesses. Se tornar explícito é que já existia sob formas latentes. «Consenso necessário»? Muitas vezes o necessário é a confrontação. Se não se entrar em consenso com quem dissente... De que consensos estão falando?
Acontece que o conflito é o que faz avançar a história quando as elites que propugnam o consenso gostariam de detê-la. 28 anos depois dum regime autonômico que se apresentava como solução aos problemas da Galiza, os baixos salários seguem sendo um reclamo para o capital forâneo, a posição que ocupamos no quadro peninsular é claramente subalterna e a nossa língua corre o sério risco de passar a ser uma peça de museu. Conflitos? Quanto mais intensos e numerosos, melhor.

Domingo, 14 de Junho de 2009

Concentração do 6 de Junho em Girona

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Colega, onde está o meu voto?

Este poderia ser o título da última comédia espanhola, baseada em fatos reais. O argumento é singelamente delirante. Logo duma decepcionante jornada eleitoral para um dos poucos partidos de esquerda que existe no Estado Espanhol, observam-se coisas estranhas; como o êxito de candidaturas esquisitas onde tradicionalmente há uma importante presença da esquerda independentista basca ou catalã, o alto número do voto nulo quando não houve qualquer estratégia significativa que chamasse por esta opção ou as diferenças entre as atas do escrutínio e os dados do Ministério de Interior. A suspeita é já quase uma evidência quando há pessoas que elegeram a papeleta de II-SP e não computaram nenhum voto desta candidatura na sua mesa eleitoral. A pergunta é imediata: “colega, onde é que está o meu voto”?
Inicialmente, todo parece dever-se a um erro na transposição dos dados por uma diferente ordem destes nas mesas e na listagem do Ministério. Para além disso, é complexo manipular uns comícios pela singela razão de que se pode controlar a contabilização e o reconto nas juntas provinciais. Mas isto é apenas no plano do direito formal, já que nas últimas horas o representante de II-SP em Barcelona foi expulso pela polícia regional do recinto onde se está a realizar reconto do voto das pessoas ausentes, impossibilitando supervisar a limpeza do processo. Em Castela, impede-se os membros desta candidatura revisar o duvidoso voto nulo. Em Astúrias não se permite o acesso aos recontos... E apenas em Euskadi, já recuperaram mais dum milheiro de votos que singelamente desapareceram ou foram imputadas a outras candidaturas. Nos Países Catalães e em Castela, calcula-se uma fraude brutal.
Ainda há mais! Os protestos da candidatura de II-SP revelaram que não só esta formação obteve uns resultados questionáveis. Outras formações também foram vítimas do biscate. Lamentavelmente, as denúncias e os recursos que se porão nesta semana não constituirão um escândalo porque estes fatos singelamente não existirão para a maioria da população do estado. Não são questões relevantes para uns médios de comunicação que consideram II-SP, a marca de ETA. E contra o terrorismo vale tudo.
Assim que desfrutem da vida. Como se estivermos em democracia.

Quarta-feira, 22 de Abril de 2009

Cobrirem a crise, descobrirmos o engano


Publicado em Hostilidade avançada (PGL)

Discurso de investidura do novo presidente autonômico. Feijoo insiste em derrogar o Decreto 124/2007 entre os entusiasmados aplausos do bunker-cabaço. Mau assunto. Cumpre temer que no seu mandato, Feijoo atacará estrategicamente a singularidade galega avivando estes debates. Fará-lo com o assunto do Decreto e com a reforma do Estatuto, no que a gente ficará enredada na discussão de se somos uma nacionalidade, uma região ou uma comunidade de vizinhos (sendo realistas, não se pode aspirar a mais).
Que as coisas irão por aqui é apenas uma suspeita. Suspeita que não se baseia nas próprias declarações do títere, senão noutra série de fatos. A saber: o informe sobre os "Efeitos previsíveis da crise econômica na carga de trabalho dos órgãos judiciários", redigido pelo CGPJ prognostica a falência em torno de 913 empresas na Galiza entre os anos 2008 e 2010. É uma projeção em base a dados do INE, pelo que não seria estranho que a realidade a começos da próxima década for mais severa do que as suas previsões.
A conjuntura não é melhor no quadro do Estado Espanhol. A resposta, para além dos regalos de dinheiro público à burguesia industrial e financeira (pelo bem que o estão a fazer), será dramaticamente previsível: intentarão cobrir a crise com a rojigualda. A Xunta, como bom departamento colonial, também. O qual é útil em dois sensos: por um lado seda-se parte da frustração populacional com uma adesão patrioteira e irracional; por outro, agitam-se polêmicas que distrairão a sociedade galega das causas do seu mal-estar. O tempo o dirá.
Neste contexto, cumpriria incrementar a ação civil: organizar a sociedade não para esperarmos o golpe, senão para passarmos decididamente à ofensiva. Neste senso, é preciso que a classe trabalhadora aperceba o galeguismo radical como uma verdadeira força de transformação social, e não como uma ferramenta oportunista para uma alternância no governo epidérmica. Neste senso, seria recomendável que o soberanismo galego cobrasse uma relevância e um protagonismo crescente. Cumpre ligar de maneira efetiva a luta pela justiça social e a libertação nacional.
Também não devemos enganar-nos: resta bastante para isso e cumpre começar desde abaixo. Porém urge também chamarmos à responsabilidade: a fragmentação atual da esquerda independentista é um luxo que não nos podemos dar.
Porque depois será complexo fazer memória e lembrar que Feijoo não derrogou o Decreto, que nasceu derrogado pela nula vontade em aplicá-lo por parte da Conselharia de Sánchez Piñón. Também pensaremos que o governo de Feijoo entregou o país à patronal de mão beijada esquecendo, por exemplo, o Acordo pola Competitividade que assinaram o bipartido e o vergonhoso amarelismo sindical.
É que os governos sucedem-se, mas o poder da CEG permanece.

Quinta-feira, 9 de Abril de 2009

A galeguidade de Rajoy

Entrevista a José Antonio González Casanova em El Periódico com motivo da publicação do seu livro La derecha contra el Estado. El liberalismo autoritario en España 1833-2008. O senhor opina que a direta espanhola nunca foi democrática, nem é na actualidade. Nada a objectar. Contudo, chega uma altura da entrevista na que oferece uma resposta curiosa
Esperanza Aguirre es el clásico liberalismo económico autoritario. José María Aznar, por ahí. Trillo es un opusdeísta fariseo. Mariano Rajoy es gallego. ¿Es eso el centroderecha moderno?
Não serei eu quem defenda Rajoy. Mas tendo em conta o seu extenso currículo de pisar a bola, de relações duvidosas e de cacicadas várias... o senhor González Casanova apenas pode destacar que é galego.

Pois que bem.

Domingo, 22 de Março de 2009

Malalties sospitoses

Publicado no semanário catalão Directa, no Observatori dels mitjans
En aquest temps d’alarma social a causa de la crisi econòmica, fins i tot s’ha publicat un titular de to positiu: «La crisi tot ho cura». Es tracta d’un petit reportatge publicat el 9 de març a la publicació local de Terrassa del diari Avui i que tracta del descens de l’absentisme laboral, suposadament degut a la situació d’incertesa econòmica i al temor als acomiadaments. Així, la crisi curaria la “malaltia” de l’absentisme, per al suplement Avui+Terrassa. I això s’expressa en un to amenaçador i alhora entusiasta: «S’han acabat les indisposicions sobtades properes al cap de setmana».
Més enllà de les opinions de diversos representants de la patronal i un sindicalista de l’UGT, on podem trobar alguna dada d’interès com que el mon empresarial també consideri absentisme unes vacances o una baixa per maternitat; els paràgrafs transmeten una imatge de peresa obrera poc decorosa: «Les trucades de primera hora de divendres o dilluns avisant el nostre cap que ens assetja un maldecap insuportable, les gestions personals “ineludibles” a mig matí o les mil excuses que en temps de vaques flaques funcionaven força bé, han caigut en desús». Ara, qualsevol absència és considerada com sospitosa de ser una mera excusa.
Fins i tot quan la por ha imposat respecte cap als horaris laborals, la classe treballadora no deixa de ser sospitosa de ganduleria perquè la crisi «segons els experts ha generat un nou tipus d’absentisme: el presencial».
Es podria parlar, també de com l’oportunisme burgès vol aprofitar la conjuntura per instar una altra retallada en els drets laborals i disciplinar agressivament les classes subalternes. Però és molt més fàcil criticar a qui paga la crisi de veritat.

Quinta-feira, 5 de Março de 2009

Chorar de sono

Como todo o mundo fala do assunto, não vou ser menos. Esse partido gris chamado PSdG-PSOE, e a sua muleta eleitoral, o BNG; perderam os comícios simplesmente porque mereceram perder. Esse choro generalizado entre as camadas médias da população, salvo excepções, o único que desvela é a cumplicidade social sobre a que se erguia esse dolce fare niente do Bloco, no que muitos depositaram as suas aspirações mesocráticas (nada a ver pois com a língua, a soberania ou o progressismo).
Desde essas facções aderidas à corrente ideológica que louva o mérito pessoal face o clientelismo, a cultura letrada em face da tontice folclórica, a presunção acadêmica face o senso comum mais vulgar; havia muita gente disposta a assumir o vazio discursivo do Bloco como uma concessão necessária ao pragmatismo político num país considerado como essencialmente conservador. É assim que o BNG se sentiu legitimado para paquerar com a burguesia, celebrar romarias septuagenárias ou respeitar as prebendas do antigo regime acrescentando as suas próprias. Em todo emulou à sua nêmese: na ostentação, na gestão dos recursos naturais, na orientação da política social cara o sector privado ou até no desejo de não virar a língua numa questão problemática (como se não fosse desde sempre). Frente às críticas provenientes das suas próprias bases, o Bloco amostrou-se totalmente hermético... Tratava-se de disputar votos ao sector boina do PP, demonstrando que o marxismo apenas foi um pecado de juventude dalguns dos seus dirigentes.
O rural galego é propriedade política do PP, não há mais. A área rural, escassamente dinâmica, parcelada até o infinito e visivelmente avelhantada; é o hábitat do pequeno proprietário dependente, sustento dos cacicatos locais. O mundo rural permaneceu imperturbável. Como se pretende seduzir uma classe social à que no fundo se despreza?
Não foi o único fracasso amoroso do BNG. Os seus galanteios com a burguesia autóctone apenas tiveram como resposta o informe do Clube Financeiro de Vigo e a campanha de La Voz de Galicia; autêntica voz não só de Santiago Rey, também de Paco Vázquez, Jose Luis Méndez, Amancio Ortega ou a Condesa de Fenosa. Quer dizer, a voz da classe dominante. Como exercer o nepotismo sem uns médios de comunicação discretos? Até a “oportuna” introdução do Xornal de Galicia, nem valeu para ter um médio de comunicação integramente em galego. Se não é possível esperar apenas isso do nacionalismo indígena... para que demônios nos serve?
Afinal, parte das bases aborreceram com a espera e caíram no reverso lógico do voto útil: o voto de castigo. Chorem por isso. Essa chantagem da democracia burguesa na que seguirão caindo apenas servirá a Espanha: promoverá a concentração do voto para reduzir drasticamente a heterogeneidade política do país e afinal, os erros que cometer o BNG se computarão como erros do nacionalismo galego no seu conjunto. Sigam pisando a armadilha.
No entanto, o coro de choradeiras seguirá sem olhar fora, à esquerda do parlamento. O único lugar onde é possível uma muito longínqua esperança.